A Salsicha
Um conto de Friedrich Dürrenmatt (1921-1990)
Um homem matou sua esposa e a transformou em salsichas. O ato originou rumores. O homem foi preso. Uma salsicha remanescente foi encontrada. Houve um grande escândalo público. O juiz supremo da nação assumiu o caso.
A sala de audiência está iluminada. A luz do sol transborda pelas janelas. As paredes são espelhos brilhantes. As pessoas são uma massa em ebulição. Enchem a sala. Sentam-se nos peitoris das janelas. Penduram-se nos candelabros. À direita ferve a calva cabeça do promotor. É vermelha. O advogado de defesa está à esquerda. Seus óculos são discos cegos. O acusado senta-se no meio entre dois policiais. Suas mãos são enormes. Seus dedos têm pontas azuis. O juiz supremo senta-se entronizado acima de todos. Sua toga é preta. Sua barba é uma bandeira branca. Seus olhos, austeros. Sua testa, clareza. Suas sobrancelhas, fúria. Sua face, humanidade. Diante dele, a salsicha. Posta num prato. Entronizada acima do juiz, está a Justiça. Seus olhos estão vendados. Na mão direita, uma espada. Na esquerda, a balança. Ela é feita de pedra. O juiz supremo ergue uma mão. O povo emudece. Seus movimentos congelam. A sala repousa. O tempo espreita. O promotor levanta-se. Sua barriga é um globo. Seus lábios são a guilhotina. Sua língua é uma lâmina cadente. As palavras martelam a sala de audiência. O acusado estremece. O juiz escuta. Entre suas sobrancelhas há um sulco íngreme. Seus olhos são como sóis. Cujos raios atingem o acusado. Que afunda em si mesmo. Seus joelhos tremem. Suas mãos oram. Sua língua pende. Suas orelhas protraem. A salsicha em diante do juiz é vermelha. Suas pontas arredondadas. A cordinha no fim é amarela. Ela repousa. O juiz supremo olha do alto para o mais abjeto ser humano. É um homem pequeno. Sua pele é como couro. Sua boca é um bico. Seus lábios, sangue coagulado. Seus olhos, cabeças de alfinetes. Sua testa, achatada. Seus dedos, grossos. A salsicha tem um cheiro agradável. Chega mais perto. A superfície é macia. Ela é firme. A unha deixa uma marca em formato de meia lua. A salsicha é cálida. Sua forma é roliça. O promotor está calado. O acusado levanta a cabeça. Seu olhar é uma criança martirizada. O juiz supremo ergue uma mão. O advogado de defesa põem-se de pé num pulo. Seus óculos dançam. Palavras quicam pela sala. A salsicha fumega. O vapor é morno. Um pequeno canivete se abre. A salsicha esguicha. O advogado emudece. O juiz supremo vê o acusado. Ele está lá embaixo. Ele é uma pulga. O juiz supremo balança a cabeça. Seu olhar é desprezo. O juiz começa a falar. Suas palavras são sabres de justiça. Elas caem feito montanhas sobre o acusado. Suas frases são cordas. Elas flagelam. Enforcam. Matam. A carne é macia. É doce. Derrete como manteiga. A pele é um pouco mais firme. As paredes ressoam. O teto cerra os punhos. As janelas rangem. As portas estremecem em suas dobradiças. Os muros batem seus pés; A cidade empalidece. As florestas murcham. As águas evaporam. A terra treme. O sol morre. O céu desaba. O acusado é condenado. A morte abre sua bocarra. O canivete está deitado na mesa. Os dedos estão pegajosos. Acariciam a toga preta. O juiz supremo está quieto. A sala de audiência está morta. O ar é pesado. Os pulmões cheios de chumbo. O povo tremelica. O acusado gruda na cadeira. Ele está condenado. Pode fazer um último desejo. Ele se encolhe. O pedido rasteja de seu cérebro. É pequeno. Cresce. Vira um gigante. Constitui uma massa compacta. Toma forma. Aparta os lábios à força. Mergulha na sala. Emite o som. O pervertido quer comer o resto de sua pobre esposa: a salsicha. A repulsa grita. O juiz supremo ergue a mão. O povo se cala. O juiz supremo é como Deus. Sua voz a última trombeta. Ele concede o desejo. O homem condenado pode comer a salsicha. O juiz supremo olha para o prato. A salsicha sumiu. Ele se cala. O silêncio é cavernoso. O povo olha para o supremo juiz. Os olhos do condenado estão arregalados. Há uma questão neles. A questão é terrível. Ela flui pela sala. Desce até o piso. Agarra-se às paredes. Se acocora no teto acima. Toma posse de cada pessoa. A sala de audiência se alarga. O mundo se transforma num enorme ponto de interrogação.


